CESÁRIO DA ROCHA MARTINS

Olaria de barro negro, Bisalhães, Vila Real

Cesário da Rocha Martins é um dos cinco oleiros que atualmente se dedicam à confeção de barro negro em Bisalhães segundo técnicas ancestrais. Nascido em 1935, aos 11 anos começou a aprender a modelar o barro. Contudo, a maior parte da sua vida profissional foi passada na Guarda Nacional Republicana. Na verdade, só depois de se reformar regressou à produção de olaria, ajudado pela sua mulher que fazia os desenhos nas peças. Acredita que o futuro da arte do barro de Bisalhães terá que passar pela transmissão do conhecimento das técnicas de produção: o ideal é começar a aprender desde criança. Apesar dos problemas de saúde que o têm afetado nos últimos anos, ainda é frequente encontrá-lo no seu ponto de venda situado à entrada de Vila Real, pronto para partilhar as suas histórias e opiniões. 

Visitámos Cesário Martins num dia quente de maio de 2018. Fomos encontrá-lo à porta de sua casa, mesmo na aldeia de Bisalhães, prestes a sair para uma consulta. Apesar disso, disponibilizou-se prontamente a responder às nossas perguntas, num canto improvisado da sua garagem onde trabalha o barro numa roda que herdou dos seus pais. Acompanhou-nos ainda ao forno coletivo onde coze as suas peças, ao qual regressámos em dezembro para assistir a esse processo.

Sempre foi oleiro?

Sim. Fui oleiro desde a idade de 11 anos. Fiz a quarta classe "no tempo da fome". O meu pai não tinha mais nada a fazer e ensinou-me a arte dele. Fiz a quarta classe e continuei aqui a trabalhar com os meus pais. Depois fui para a tropa para Lisboa. Depois vim para aqui para Vila Real e tive que me desenrascar para outro lado.

Porquê?

Porque isto não dava nada, a arte não dava nada. Então, o que foi que eu fiz? Pedi ao meu pai para me dar dinheiro para me meter para a guarda e para a polícia. E a resposta dele: “Não! Não te dou, que toda a minha vida me criei nisto, sem ir para a guarda ou para a polícia!”. Então, ele foi fazer uma feira e eu tirei-lhe um bocado de milho e vendi uma sardinheira. Arranjei cinco coroas, naquele tempo! Fui fazer os exames, fiquei bem nos concursos e fui, então, para a guarda. Já estava casado com a minha mulher nessa altura. A minha filha nasceu antes, em 56, ainda andava eu na tropa. Aí é que ainda éramos solteiros. A minha mulher enganou-me, que eu era mais novo do que ela (risos). Depois, andava na guarda, queria sair, mas em Lisboa não me deixavam ir sem pagar o fardamento. Como não tinha dinheiro para o pagar, fiquei na guarda! Estive lá trinta e seis anos, na Guarda Republicana, em Lisboa e no Porto. Reformei-me há vinte e seis anos e tenho a paixão disto.

Aprendeu esta arte antes de ir para a guarda, então?

Foi desde que fiz a quarta classe, onze anos! Aprendi com o meu pai, António Martins, e com os meus avós também.

Também eram oleiros?

Aqui era tudo! Quando aprendi a arte, éramos aqui setenta.

Tem mais algum familiar oleiro?

Sim, o meu irmão mais velho, Manuel da Rocha Martins. Mas ele agora faz muito pouca louça.

Sempre trabalhou neste espaço?

Foi. Trabalhei sempre aqui. Olhe, a roda está aqui.

Quem construiu essa roda?

Não sei. Era dos meus pais.

E sempre trabalhou sozinho?

Sim.

Não tinha ninguém que lhe fizesse os desenhos?

Os desenhos, tinha. Era a minha esposa, mas está muito mal agora… Era ela que me gogava tudo. Enquanto eu picava o barro, ela ia fazendo. Agora, em vez de fazer cinco, faço uma ou duas e gogo eu, sou eu que faço os desenhos todos.

Trabalha todos os dias no barro?

Trabalho todos os dias, quando tenho vagar. Trabalho porque tenho a paixão disto. Graças a Deus, a reformazita vai dando…

Que tipo de peças é que produz, mais utilitárias ou mais decorativas?

Mais utilitárias, que o povo quer mais. Agora já se vai vendendo destas bilhas, é a bilha de rosca. Tem ali grandes! E estas assadeiras para as batatas e para a carne, no forno.

Faz algumas peças por encomenda?

Tenho feito, tenho.

Para restaurantes?

Sim. Eles pedem destas peças, para uma dose. Aqui em Vila Real, o pessoal já sabe todo quem eu sou e forneço os restaurantes todos. Toda a louça preta que está nos restaurantes, é toda minha. É mesmo de Bisalhães, não é aldrabice.

Agora já se vai vendendo destas bilhas, é a bilha de rosca...

Que barro é que utiliza? É daqui de Bisalhães?

Não. Aqui em Bisalhães nunca tivemos barro. Antigamente havia em Parada de Cunhos, mas agora, como acabou – para aí há dez anos faliu – íamos buscá-lo a Chaves, à Fluviense, à barreira. O ano passado fechou no Natal e parece que agora a Câmara vai arranjar barro para nós. Foi louvado aqui o barro de Bisalhães, não sei se sabem…

Sim, sim. Foi considerado património da humanidade pela UNESCO.

O Presidente da Câmara é obrigado a pôr isto assim acima, não é só, "venha a nós o vosso reino" (risos). Mas, coitado, ainda não teve tempo de fazer nada.

Acha que depois as coisas vão melhorar?

Já está tudo velhote, não há ninguém que aprenda, já não há quem ensine estas coisas…

Já alguma vez ensinou alguém a trabalhar o barro?

Tinha dois netos, e tenho, foram criados comigo e eu bem tentei, mas eles não quiseram nada. Nunca tiveram vontade disto. Só na minha aldeia, há quatro anos éramos dezasseis!

O que é que imagina que vai acontecer? Acha que a louça preta vai desaparecer em Bisalhães?

Desaparece, desaparece! Se não houver ninguém que bote a mão e que faça uma escola… eu já disse há muitos anos, o que digo sempre! Devia haver uma escola onde as crianças pudessem aprender. Esta arte não é num ano ou dois que se aprende. Uma pessoa com vinte ou trinta anos é difícil aprender. Pode aprender, mas...

Acha que as pessoas mais novas poderiam ter interesse em aprender esta arte?

Sim, poderiam ter interesse porque, coitados, precisam de comer, precisam de calçar. Se não ganharem nada… E assim, já havia mais pessoal.

Ou seja, para aprender acha que tem de ser mesmo de pequenino?

Pois! Ou depois de fazer a quarta classe, no tempo da escola, dar um cheirinho, tirar uma hora para aprender. Ou até pôr lá uma roda e contactar um artesão (o que pudesse) e, pouco a pouco, talvez alguém fosse capaz de ter aquela paixão de aprender. Eu fui muitas vezes às escolas e uns já davam um jeitinho e outros só queriam brincar. Eu fui várias vezes às escolas e nunca levei dinheiro, nunca! Só me davam de comer, levavam-me e traziam-me. Mas, meu amigo, não há quem faça nada. Há tanto tempo que deu isto e ainda não fizeram nada aqui em Bisalhães! Não vejo aqui nada! Ainda não mudou nada!

Em comparação com o que se fazia antigamente, acha que há muitas modificações na forma de trabalhar o barro nos dias de hoje?

A louça que se fazia antigamente é a que faço agora. Alterações, não há. Faço à roda e faço à mão, não há eletricidade, nem nada. Se não, não é considerado artesanato; se for feito com modelos ou com moldes, também não é artesanato. Fazer uma peça com molde, como a telha, isso não é de artesão! A nossa louça é diferente de todas. Não desfaço a louça amarela, nem a louça vermelha, mas na nossa a comida fica diferente, porque a nossa é só feita à roda e não há mais nada, não há misturas, não tem óleos, não tem nada, é só o trabalho do artesão. Isto é tudo manual. Isto é mesmo artesanato. É picado aqui o barro. Sabe como é que eu faço? Olhe, esta “velhota” [refere-se à carrinha] anda aqui para baixo e para cima e esmigalha-me o barro.

É uma boa ideia!

Agora os nossos barros não são tão fortes como eram antigamente. Eu cheguei a fazer, naquela roda, uma tanha para o azeite, levou-me quatro almudes. O barro era teso, era forte, agora é tudo falsificado. O barro é picado aqui, peneirado para esta balança, é escrivado, isto é que é manual! Depois ponho água e amasso, como o pão. Vocês se quiserem ver isto no CD, do princípio ao fim, vão ao Museu da Vila Velha, existem lá dois filmes meus.

Onde é que coze as peças?

No forno.

É um forno coletivo?

É. É o único que eu uso. Eu era para construir um aqui dentro, nas minhas terras, mas os meus vizinhos fizeram um cada um, e eu pensei: “Alto! Então já não estrago a terra e fico com aquele, que é do povo”. Quando alguém quer lá ir, vai cozer, quando vou lá, cozo eu. Quando quiserem ir lá cozer podem ir lá, aquilo não é meu. Poupei aqui o terreno da vinha.

(Cesário leva-nos ao forno.)
Ora venham ver o forno. Isto é tipo um poço e, depois, tem uma grade em ferro. A gente põe ali a loiça uma por cima da outra, põe-se a lenha por baixo, e, quando chegar aos oitocentos graus é abafado com a terra preta. Esta terra está duas, três horas e é isso que dá a cor. O fumo põe a peça preta, por fora e por dentro.

Glória Martins (filha de Cesário) - Ninguém sabe o que vai sair lá de dentro. É "o segredo".

Gostava de dizer algo mais?

Não tenho mais nada a dizer. Gostaria que isto fosse para cima. Porque é ter paixão. Tenho oitenta e dois, de caminho oitenta e três e tenho paixão disto, tenho paixão.

Entrevista conduzida por Maria Manuela Restivo e Evaristo Moreira*.
* Moreira, E. (2018). Ensino online da olaria de roda baixa: Um estudo das representações sociais. Mestrado em Multimédia. Universidade do Porto (https://dei.fe.up.pt/mm/pt). (Orientado por C. Morais e coorientado por L. Moreira e M. M. Restivo).
Disponível em http://hdl.handle.net/10216/114332