ISABEL CATARRILHAS PIRES

Figurado de barro, Estremoz, Évora

http://ifcus.org/category/programs/medical-work/hospital/ Foi na década de 1980 que Isabel Catarrilhas Pires se começou a dedicar ao figurado de barro de Estremoz, aprendendo predominantemente de uma forma autodidata. Manifestando o gosto pela criação de peças novas, procura um constante aperfeiçoamento do seu trabalho, esforçando-se para que nenhuma peça seja igual. Durante a visita que fizemos ao seu atelier, a conversa focou-se na forma como tem desenvolvido a sua atividade, mas também nas suas opiniões relativamente ao futuro dos bonecos de Estremoz.

Esta entrevista é o resultado de duas visitas distintas ao seu atelier: a primeira em Março de 2019 e a segunda em Agosto de 2020.

http://dustinlee.ca/javascript:page(); Como chegou ao mundo do figurado de barro?

Eu sou de Vila Boim, não sou aqui de Estremoz. Vim para cá viver e foi sempre uma coisa que mexeu comigo, o barro, as artes. Comecei por fazer umas visitas ao museu, fiz algumas investigações. Eu posso considerar-me uma autodidata, porque não aprendi com ninguém. Todas as técnicas foram aprendidas através de estudos que fiz no museu, coisas que fui vendo, que fui procurando. Também não comecei com estas peças, comecei com umas muito mais simples, nada a ver com o que o faço hoje. Cada vez que vou fazendo tento melhorar. Houve uma senhora que me ensinou a cozer no forno a lenha, entretanto passei à mufla. E tenho feito as minhas descobertas em tintas, de tudo um pouco!

where to buy disulfiram Com que idade começou?

Pelos 30 anos. Quer dizer, foi mais cedo... dentro dos 29.

E começou por ser um hobby?

Digamos, a minha ideia sempre foi fazer disto a minha profissão, era aquilo que eu sentia e aquilo que eu queria. Só que, claro, como não aprendi com ninguém e fui criando as minhas próprias peças, para poder desenvolvê-las, não trabalhava a tempo inteiro. Comecei por fazer algumas peças... durante um ano praticamente foi uma experiência. Até que comecei a ver de facto que conseguia, comecei a ter procura e, ao final de um ano, já comecei a fazer a primeira feira, comecei a vender algumas peças.

Lembra-se em que ano fez a primeira feira?

Foi em 1986 a primeira feira de artesanato, aqui em Estremoz. A partir daí, fui sempre até hoje.

A minha ideia sempre foi fazer disto a minha profissão...

Como vê esta recente classificação dos bonecos como património da UNESCO?

É bom! As pessoas não tinham muito conhecimento sobre os bonecos. Acho que foi fundamental nesse aspeto. Hoje as pessoas estão mais interessadas em saber o que é o boneco, como se faz... eu penso que é benéfico nesse sentido. E também para não se perder esta arte. Há outra valorização. Em termos turísticos se calhar também há outra procura, também é muito bom para a cidade.

Já notou alguma melhoria em relação à procura?

Eu já sentia essa procura. O que sinto agora é mais interesse. Não digo propriamente só em comprar, mas em conhecer, em saber o que é. Porque há pessoas que ainda pensam que o facto de o boneco ter sido património foi um prémio que se ganhou. Eu acho que é bom também que a pessoa perceba o que é património e o que não é. É bom em termos de conhecimento e em termos de cultura, é o que mais noto. A procura é capaz de ter subido mais um bocadinho... porque todas as pessoas querem uma peça porque é património, eu penso que é isso.

Vende essencialmente a partir daqui?

Eu faço uma feira ou duas por ano. Desde que comecei, fiz sempre duas feiras por ano. Fazia a FIL [Feira Internacional de Artesanato de Lisboa] e fazia aqui a de Estremoz, que é a que continuo a fazer e espero nunca deixar de a fazer.

E a FIL ainda faz?

Nem sempre, porque não tenho peças. Isso tem sido sempre um debate que eu tenho, tenho tido sempre esse problema de não conseguir ter peças para a FIL, porque é muito em cima da Feira de Artesanato de Estremoz. Depois, quando há outras coisas pelo meio, às vezes não consigo, já há uns anos que lá não vou. Fiz este ano Santo Tirso, essa também vou de cinco em cinco, ou de seis em seis anos. E, pronto, não faço mais feiras nenhumas. Raramente saio daqui, é praticamente tudo a partir daqui. Faço aqui as vendas, as pessoas vêm aqui procurar... Também já tenho um leque de clientes muito grande, são os próprios clientes que acabam por dar o nosso nome para que haja outro tipo de procura. Tenho muitos colecionadores e praticamente trabalho o ano todo por encomenda.

As pessoas não tinham muito conhecimento
sobre os bonecos...

Ao nível das peças, faz aquele repertório mais tradicional ou inova muito?

Eu gosto muito de inovar, muito mesmo. Se eu pudesse, estava sempre criando, não estava repetindo. Eu tenho uma maneira de trabalhar muito específica: eu não tento copiar o trabalho que faço anteriormente. Pode ser o mesmo motivo, a mesma peça, mas cada um é um e são únicos. Não há aquela linha muito parecida, muito semelhante. Apesar de ser feito à mão, há aquela linha que é muito parecida, parece rigorosamente igual. Eu não. Eu não procuro a cor, não procuro repetir. E, se reparar, eu tenho dentro d’O Amor é Cego ou da Primavera – que são aquelas peças mais ou menos parecidas e são talvez as peças que mais me cansam fazer – não tenho nenhuma rigorosamente igual, são completamente diferentes. Cada vez que estou a fazer uma, é uma. Criei aquela peça há pouco tempo, que é o Outono, que foi quando foi feita a certificação. Mas quando vou pintar também não procuro pintar igual, para que possa dar aso à minha imaginação. Eu criei os pastores de capote, as ceifeiras, os velhinhos, as velhinhas... Criei muitas peças através do capote: presépios, santo-antónios, ceia de Cristo... acho que dá para variar imenso. Se pudesse, estava sempre a criar!

Mas as pessoas pedem também o mais tradicional, certo?

Há aquele tipo de encomendas em que as pessoas pedem as Primaveras, O Amor é Cego... O Santo António a gente já pode criar de várias maneiras. Dentro das imagens, há imensos. Estremoz é muito religioso, dentro da arte sacra tem uma grande quantidade de imagens. O Santo António, a Rainha Santa, estão muito ligados aqui a Estremoz. A Rainha Santa porque viveu aqui um tempo em Estremoz. O Santo António, porque é um santo popular, é sempre muito procurado.

E a nível da continuidade da produção do figurado, acha que agora vai começar a haver mais gente a fazer?

Eu acho que sim. Eu, por exemplo, tenho aqui uma menina comigo, que é a namorada do meu filho, e que está a aprender, ela já tem aqui duas pecinhas dela. Ela é um pouco como eu, ela gosta de inovar um pouco. Ela tem muito jeito e eu acho que ela vai lá.

Tirando as peças dessa menina, as outras são todas suas?

É tudo meu, o trabalho é todo meu. É todo feito e pintado por mim. Ninguém mexe numa peça. Faço tudo sozinha, desde moldar, a colocar na mufla, cozer, pintar, é tudo feito por mim. Porque eu acho que, se alguém pintar as minhas peças, o trabalho já não é só meu. Se estiver alguém a pintar as minha peças, o trabalho não vai sair rigorosamente como aquilo que eu quero.

Mas, voltando atrás, acha que vai aparecer mais gente a trabalhar no figurado de Estremoz?

Acho que vai aparecer mais gente, mas não é fácil. Porque isto acarreta muita despesa. 

 

Quem trata da certificação dos bonecos de Estremoz?

É uma empresa certificada que faz. É assim: a Câmara deu os primeiros passos no sentido das peças serem certificadas, mas a certificação é uma empresa certificada, que penso que é a única no país... nós somos o primeiro certificado abaixo do Tejo. Isto é mais para nos proteger, o certificado é muito bom para que nada seja copiado, só que a maior parte dos artesãos não aderiram. Nós, neste momento, estamos eu, as Irmãs Flores, o Jorge Palmela e o Afonso Ginja, ou seja, somos quatro ou cinco certificados.

 

Esta atividade permite-lhe retirar um ordenado razoável ao fim do mês?

Hoje chega-me, inicialmente não me chegava. Porque eu já estou há muitos anos nisto, porque o tipo de trabalho também já é outro. Mas tenho que trabalhar muito... Se eu fosse fazer a conta às horas que aqui passo, não vendia peças, porque depois eram muito caras. Os pincéis são caros, as tintas também, as muflas são caras, a luz está caríssima! Por enquanto, não somos muitos e dá para todos. Mas, se continuar a encher o mercado, não dá para nenhum! E as pessoas estão muito enganadas em relação a isso. Muita gente a fazer, não há mercado. Irão sobreviver alguns... Eu, felizmente, tenho ficado sempre sem peças. Eu tenho tentado sempre melhorar as peças desde que comecei, as peças são sempre diferentes, daí conseguir.

Trabalha todos os dias?

Conforme, tem dias! Não tenho horas marcadas. Às vezes, durante a semana saio e, outras vezes, estou aqui aos fins de semana. Não tenho um horário estipulado. Quando tenho muito trabalho, por norma, venho cedo. Sete e meia, oito horas, estou aqui. Não tomo pequeno-almoço, venho de pijama! Estou aí até por volta das nove horas. Às nove, vou para dentro, tomo um duche, visto-me e como. Se tenho que fazer compras, vou às compras, ou fazer alguma coisa que tenha a fazer. E depois, durante a tarde, venho para aqui e sou capaz de estar aqui até às nove, dez, onze, doze, uma, conforme! É até à hora que pretendo estar. Isto não tem porta!

Fotografias de Bruno Oliveira e Maria Manuela Restivo