PORFÍRIO MENDES

Escultura em cortiça, Palme, Barcelos

Manhuaçu Porfírio Mendes, nascido em 1967, trabalha desde os catorze anos na construção civil. Nas horas vagas, dedica-se à criação de objetos em diferentes materiais, dando largas à sua fértil imaginação. Começou por trabalhar a pedra, fazendo miniaturas de moinhos e igrejas que colocava no muro da sua casa, para serem vistas por quem lá passasse. Depois experimentou o ferro, com o qual realizou mesas e cadeiras para uso doméstico, mas que aplicou também na criação de esculturas decorativas e provocatórias, ou, nas palavras de Porfírio, "marotas". Mais recentemente, fruto da necessidade de um rendimento extra, começou a esculpir a partir de rolhas de cortiça, construindo bonecos que remetem para um imaginário rural, habitado por santos, diabos, apicultores ou homens de moto-serra. Em tudo o que faz, Porfírio deixa a sua marca: as suas peças são originais e despretensiosas, apresentando frequentemente um lado jocoso, que reflete a capacidade que Porfírio tem de rir de si e do mundo que o rodeia, mesmo em situações mais agrestes.

Recebeu-nos calorosamente em sua casa, em Setembro de 2021, num périplo que se iniciou na divisão onde expõe as suas esculturas e que passou pela sua oficina e pelo jardim. Com ele encontrava-se a sua filha Adriana – que fotografa as peças e faz a gestão das redes sociais – e Minhoto, o cão da família, especialmente entusiasmado com as visitas.

Entrem, vejam como este galo canta! [risos]

Ena! Como se lembrou de fazer este galo cantor?

Foi um senhor, que era dono de um restaurante em Espanha, que me encomendou um galo para pôr em cada mesa do restaurante. Eu disse-lhe: "Eu estou a fazer alguns galos a cantar." E o senhor comprou um e pôs ao lado da caixa registadora. Como isto é sensível ao toque, de cada vez que o senhor utilizava a caixa registadora, o galo cantava! O pessoal que via engraçava com o galo, então começaram a pedir galos através do restaurante e vendi imensos galos para Espanha, imensos! Se bater palmas, também canta! [risos] Foi um sucesso. Tenho muita gente que quis que eu lhe ensinasse este segredo, mas eu não posso, é um segredo meu. E já estive a tentar que ele falasse também! [risos]

Quando começou a fazer estas figuras em cortiça?

Comecei em 2013. Se querem saber mesmo a história, foi por causa de um filho meu que é deficiente. Eu queria uma cadeira de rodas, mas a Segurança Social dizia que eu não tinha direito a uma, porque tinha casa própria. Então eu cismei que devia fazer qualquer coisa para criar uns fundos para a cadeira de rodas e comecei a trabalhar com rolhas. Comprava os materiaizinhos necessários e depois vendia uma pecinha e punha o dinheiro de parte. Houve uma associação aqui perto que começou a ajudar-me e começámos a fazer feirinhas, umas aqui, outras nas freguesias ao lado, e as pessoas começaram a aderir muito bem! Alguns compravam as peças e ainda davam donativos, e assim conseguimos juntar dinheiro para comprar uma cadeira de rodas elétrica. Estou sem palavras para estas pessoas que me ajudaram muito, pensei que já não havia pessoas desta natureza, mas por acaso ainda há gente de muito bom coração! Depois disto, as pessoas gostaram das minhas brincadeiras, eu tomei o gosto e continuei a fazer. Ocupo os meus tempos livres só nisto. Em vez de ir ao café, estou de volta das rolhas, é o meu passatempo. Eu trabalho na construção civil, de segunda a sexta, isto é só mesmo nos tempos que tenho disponíveis. Nunca posso dedicar um dia inteiro a isto.

Minturno Trabalha na construção civil a tempo inteiro?

Sim. Mal saí da escola, fui logo trabalhar. Foi por isso que nem ganhei corpo! E fui para a construção civil desde os meus 14 anos. Faço de tudo um pouco, fui habituado nestas funções. Comecei como servente, a acartar baldes de massa para os oficiais, e fui aprendendo. Hoje tenho os serventes a darem-me material e eu a executar o trabalho.

Onde vai buscar inspiração para as suas peças?

Isto é assim, a imaginação... Temos dias, em que vamos para a beira da peça e não nos sai nada. A gente faz, faz, faz e não sai nada. Mas temos outros dias em que a gente vai dar uma voltinha pelo campo, e quando volta, já tornam as ideias a vir. Temos ideias boas e temos más. É como tudo, nem sempre sai bem. Estamos sempre a imaginar o próximo, não podemos fazer sempre igual. Eu não gosto de repetir as peças, tento variar alguma coisa sempre, ou na pintura, ou no que eles estão a fazer. Por exemplo, eu tenho feito muitos diabos, que é uma peça que me tem saído muito bem. Mas recentemente tenho uma peça nova, que é a mulher-diaba. Vamos ver se alguém vai gostar ou não. Esperemos que sim! E querem saber a história do mocho e da coruja? Houve uma coruja que caiu pela minha chaminé abaixo e a minha esposa tirou-lhe uma fotografia e cismou que queria que eu lhe fizesse uma. Então eu fiz uma coruja mediante a que caiu pela chaminé abaixo. E, depois dessa coruja, fui fazer os mochos. Portanto, esta coruja não vendo, que é da minha esposa.

Onde costuma vender?

Ultimamente não tenho ido, mas antes eu andava nas festas, nas romarias. Também tenho peças na Associação do Galo em Barcelos, também tenho numa associação na Póvoa do Varzim... mas normalmente era nas romarias e festas que eu punha a minha banquinha. E também já tenho tido algumas pessoas a vir aqui, pessoas de Lisboa, colecionadores, mas não muitas.

OFICINA

Este é o meu cantinho, onde eu trabalho. É por aqui que passam os bonecos todos. E é daqui que a minha esposa me chama: "Ainda não vens comer?" E eu digo: "Espera aí, estou a pintar mais uma pecinha, está a acabar!" "Anda!" [risos]

Como é que a sua família encarou este seu trabalho artístico?

A minha filha ajuda-me muito na comunicação na internet, no facebook e tira as fotografias. A minha esposa gosta e não gosta. Ela até gosta disto, mas quando tem o jantar pronto e chama por mim para eu subir... Eu, se estou a pintar uma pecinha, tenho que a acabar, e, então, ela fica aborrecida por eu não ir logo. Ela gosta e não gosta, está a perceber? [risos]

"Espera aí, estou a pintar mais uma pecinha!"...

Porque escolheu trabalhar as rolhas?

Foi uma ideia que me veio, por ser uma coisa fácil de trabalhar e de transformar. Eu recolho muita rolha usada, nos restaurantes, nos cafés... eles vão juntando e eu vou recolhendo. Tenho vários tipos de rolhas. Por exemplo, uso as de champanhe para fazer as cabeças. Eu procurei um material acessível, fácil de trabalhar... Não é muito fácil, porque também parte muito! É preciso fazer com jeito. E tem que se gostar de fazer. Fazendo com gosto, tudo se faz! Agora estou aqui a contas com uns presépios mais pequeninos. Isto vai ser uma cabeça de uma minhota grande. Eu faço o enchimento e depois vou recortando.

Quais são as ferramentas que utiliza?

As minhas armas da cortiça, está a ver, são uma faca, uma navalha pequenina – que é o que corta as rolhas –, depois temos as lixas, uma lima, e pronto. Depois uso cola quente de pistola, para colar.

Quanto tempo demora a fazer um boneco destes, por exemplo?

Não chegam oito horas! Por exemplo, é preciso pintar os bonecos três vezes, porque a rolha absorve muito a tinta. Mas há umas peças que levam mais tempo e outras menos. Se perguntar o tempo daquele galo grande... nem imagina! Tem mil e tal rolhas!

E estes senhores musculados? São inspiração? [risos]

Por acaso, foram! Para o São Sebastião, porque ele está despido por causa das setas. Queria definir mais o corpo e os músculos ali do amigo. [risos]

JARDIM

Este trabalho em ferro é muito interessante! Também é feito por si?

Sim, eu faço qualquer coisa, já nas obras eu faço um bocado de tudo. Estas coisas em ferro foi mais cá para casa, uma brincadeira. Fiz a mesa e as cadeiras. E depois tenho aqui este sentinela, que atirava água aqui por esta pistola! [risos] Eu era maroto, as pessoas passavam aqui e eu "zás!", acionava e deitava água! Mas já não funciona. Está tudo como o dono!

E esta fonte?

É uma fonte marota, é a "Fonte do Amor". [risos]

O que são estas construções em pedra por aqui espalhadas?

Antes do ano 2000, eu criava muitas coisas em pedra, moinhos, azenhas,... Muitos foram para o estrangeiro, para jardins... Esta aqui é a igreja da nossa freguesia, tinha música, iluminação, tocavam os sinos, tinha o padre lá dentro, era como se fosse mesmo a igreja da freguesia! Mas agora mudei-a de sítio por causa das obras e não está a funcionar. Eu comecei por fazer uns moinhos em pedra e punha ali no muro para as pessoas verem. E vendi muitos! Depois, com a crise, isto abrandou muito e agora só faço por encomenda. Eu trabalho em qualquer material, ferro, pedra, cortiça. As peças de cortiça são mais baratas e mais pequeninas e vai-se fazendo melhor.

Gostava de fazer isto a tempo inteiro?

Gostava, mas atualmente não posso. Mas gostava, porque isto tira-me o stress todo. A gente a trabalhar nisto parece que o tempo é mais divertido. Estamos entretidos, concentrados na peça, nem se dá conta do tempo passar.