IRMÃOS BARAÇA

Figurado de barro, Galegos Santa Maria, Barcelos

Kakamigahara A família Baraça constitui uma das mais sólidas famílias a produzir figurado de barro em Barcelos, encontrando-se atualmente na terceira geração de artesãos. Tudo começou com Ana Baraça, nascida em Galegos Santa Maria em 1904, continuando, num primeiro momento, com o seu filho, Fernando Gonçalves Pereira “Baraça”, e atualmente, com dois dos seus netos, Vítor e Moisés “Baraça”. Se Ana Baraça ficou célebre pela criação de cenas da vida rural em barro, e pelas suas características figuras de olhos achatados, os seus descendentes, para além de darem continuidade a essa linha, têm optado igualmente pela introdução de elementos da vida contemporânea, tais como motas ou aviões, sem, contudo, perder o carácter dos bonecos identificável com o “estilo Baraça”. 

Em Outubro de 2019 visitámos o atelier Baraça, onde conversámos com Fernando, Moisés e Vítor. A diversidade dos protagonistas permitiu, para nosso agrado, realizar uma frutífera conversa sobre o percurso desta família no figurado e as razões que contribuíram para a sua estabilidade ao longo de várias gerações.

http://alittlebitdifferent.com/tag/bowie Como é que começaram a trabalhar o barro? Já sabemos que é uma família com uma longa tradição.

http://crochet247.com/tag/cruisewear-crochet-pattern/ Vítor Baraça – Isto basicamente começou pela minha avó [Ana Baraça]. Ela começou a fazer umas pecinhas em barro. Nós éramos pequeninos, estávamos sempre aqui à volta dela a brincar com o barro, e fomos seguindo o nosso caminho por aí fora, até aos dias de hoje.

E foi aqui nesta casa onde começaram?

Vítor – Sim, embora esteja diferente e não esteja como antigamente, foi aqui que tudo começou.
Moisés Baraça – Começou com a minha avó com o figurado, mas isto já tem antepassados. Sempre foi uma família de cerâmica, mas de outro tipo de cerâmica: cerâmica utilitária, louça regional. Como foi sempre uma família de cerâmica, a minha avó depois seguiu este caminho do figurado.

E depois quem continuou?

Moisés – Deu seguimento o meu pai, Fernando Gonçalves Pereira, filho da Ana Baraça, e depois começámos nós. Isto tem vindo sempre no seguimento de pais para filhos.
Fernando Baraça – Os meus pais já trabalhavam isto. Os meus avós foram os que começaram com isto. A minha mãe, eu e agora os meus filhos.

O Fernando foi o único filho da Ana Baraça que continuou a trabalhar o figurado?

Fernando – Ora bem, tenho uma irmã que chegou à idade de casar, casou e foi para França, deixou de trabalhar. Mas, até casar, trabalhava com os meus pais. As minhas irmãs ainda sabem fazer umas coisas, mas governaram-se e nunca mais quiseram saber disto. Eu fiquei com a minha mãe, continuámos sempre a fazer isto, evoluímos. E depois vieram os meus filhos, que evoluíram também. Mas isto começou praticamente com o meu avô, que era rodista, era um artista de roda. A primeira louça regional que apareceu aqui na zona era feita por ele. Ele tinha quatro filhos, todos rodistas. Isto era uma fábrica, mas era uma fábrica que não tem nada a ver com o que é hoje, era uma coisa mesmo pobrezinha, mas fabricava. Depois ele pensou em ir para o Brasil. E foi e montou lá uma fábrica!  Aqui há uns anos veio cá a Radio Televisão Brasileira e queriam saber como é que o barro apareceu no Brasil. Nós demos o ano em que o meu avô foi para lá, o tempo que lá esteve, e tudo o mais, e eles verificaram que realmente foi a pessoa que levou o barro ao Brasil, e que ainda hoje se faz lá. Depois o meu avô veio para cá e continuou a fazer com os filhos. Os filhos casaram todos e ele continuou a fazer sozinho. Trabalhou até morrer à roda. Depois ficou a minha mãe. Mas, quando o meu avô foi para o Brasil, a minha mãe foi servir para a lavoura cá, e aprendeu muitas coisas da lavoura: a fazer os carros de bois, as matanças do porco, os trabalhos no campo, ela tinha o conhecimento dessas coisas todas. E depois veio para casa e lembrou-se de fazer em barro. Ela fazia os bois a puxar os carros, as matanças, peças de lavoura, homens com sacholas às costas… Começou a fazer aquelas peças e a ir vender a Barcelos, à quinta-feira. E aquilo era um disparate já naquela altura, ela vendia tudo!

Com que idade é que ela começou?

Fernando – Não lhe sei dizer... Ela foi servir tinha 17 anos. E depois andou lá parece que um ano, um ano e tal, na lavoura, e depois veio para casa e começou a fazer essas bonequitas. Ela começou a fazer a feira em Barcelos com os seus 20 e tal anos. Vendia, o povo gostava, comprava, e ela de cada vez fazia mais. Entretanto casou. Nós éramos 4 filhos, crescemos e continuámos nisto, desde pequeninos, desde a escola! Eu até tenho duas irmãs que são analfabetas, não sabem ler. Eu ainda consegui andar na escola. Mas havia tanto trabalho que o meu pai não as deixava ir à escola. Elas no barro também eram artistas. Pronto, ganhávamos dinheiro, vivíamos bem, melhor do que as outras pessoas que andavam por aqui. Não era viver bem, era viver regular, ganhávamos. Naquele tempo não se ganhava muito, era uma pobreza enorme por aqui. Conclusão: depois fomos crescendo, fazendo, vendendo, as minhas irmãs casaram, uma foi para França, não precisavam do barro. Porque isto é assim: se for a família em consonância, um dá uma ideia, outro dá outra, a coisa vai; se for uma pessoa só, custa mais.

Ela fazia os bois a puxar os carros, as matanças, peças de lavoura, homens com sacholas às costas...

Quando começou a fazer as suas peças, tentava fazer como a sua mãe ou criar as suas próprias peças?

Fernando – Nós fazíamos tudo o que a minha mãe fazia. Mas às vezes inventávamos outras coisas. Por exemplo, o coreto que nós temos, fui eu que o inventei. A minha mãe disse assim: “Muito bem!”. Nós inventávamos, aquilo tinha muita venda, e nós continuávamos.
Vítor – O mercado também exigiu um bocadinho.
Fernando – Nesta coisa do artesanato nós também não podemos estar sempre a fazer as mesmas coisas. Hoje mesmo, se nós não fazemos coisas diferentes para o povo comprar, eles hoje compram uma coisa, amanhã não vão comprar a mesma coisa. Por isso fizemos sempre coisas novas. As minhas irmãs sabiam, mas mais na pintura. Eu era mais no barro. Eu também aprendi um pouco com o meu avô, que veio então do Brasil. Era o Manuel Valada Baraça.

Ele também estava aqui com vocês quando veio do Brasil?

Fernando – Sim, isto era tudo dele. Mas era tudo casas velhas, muito velhas.
Moisés – Também existia aqui um forno comunitário neste sítio, as pessoas vinham aqui cozer as peças.
Fernando – Sim, ele era um artista de fazer fornos para cozer louça, que ninguém mais os fazia. Fornos de cozer a louça e fornos de cozer o pão! Mesmo de velhinho vinham-no cá buscar – estas freguesias que tinham as padarias – vinham-no cá buscar e levavam-no para lá. Tinham pessoas com mais força a fazer as coisas, mas ele é que estava lá a dizer tudo: “Faz assim, assim…”! Aqui existia um forno que levava 14 carros de louça dentro, era uma coisa enorme. Os outros que faziam louça pediam-lhe para cozer nesse forno, e ele cozia. Sei que a minha mãe contava que antes se faziam aquelas rumas de lenha nos montes, e, desde o Facho até Roriz, os lavradores faziam as rumas nos montes e era tudo para aqui. Em cada fornada que coziam gastavam seis rumos de lenha. Eram três dias para cozer a louça. Aquilo era uma escravidão!
Moisés – Está a ver aqueles carros de bois antigos todos cheios de lenha!
Vítor – Quanto seria isso, duas toneladas?
Fernando – Sim, talvez. O meu avô fazia tigelas, pratos, assadeiras, e coisas utilitárias na cozinha, e fazia um volume muito grande. Era um forno enorme!
Moisés – Eu ainda me lembro do forno, e sou de 1972.

Nós não podemos estar sempre a fazer as mesmas coisas...

Ainda lá coziam peças no vosso tempo?

Moisés – Não, estava inativo. Se calhar foi das maiores asneiras que nós fizemos, foi deitar aquele forno abaixo. Era um forno bonito.
Fernando – Eu depois queria espaço para fazer um forno mais pequenino e fiz um dentro dele! [risos]. O nosso forno antes era dentro do forno grande. E era uma categoria! Entretanto o meu avô faleceu, deixou de fazer aquela louça tradicional que ele fazia, nós começámos com isto e tivemos que fazer um forno mais pequeno.
Moisés – O figurado necessita de uma produção mais pequena.

Quando falavam de cozer esses carros todos de louça, quem comprava essa louça toda? Era ainda o auge da louça utilitária, certo?

Fernando – Vendia-se na feira de Barcelos, era uma das maiores feiras do país. Aqui há uns anos é que começou a decrescer muito. Agora já ninguém quer essa louça, a regional. O meu avô começou a fazê-la ainda sem vidro; depois é que começou a adaptar-lhe o vidro.
Moisés – Ó pai, mas o problema é que a louça utilitária, a regional, toda a gente usava essa louça, porque não havia plástico. Quando começou a vir o plástico, as pessoas deixaram de comprar.
Fernando – Mas a quebra total dessa louça foi há pouco tempo, há coisa de 10, 15 anos. Porque os estudos que fizeram sobre o chumbo que lhe adaptavam, era prejudicial, e isso deitou essa louça muito abaixo.

A sua mãe nem sempre assinou as peças, pois não?

Fernando – Não, nós estivemos muitos anos a fazer a louça sem assinar. Depois começaram a aparecer pessoas, já com mais cultura, e começaram a dizer: “Olhe, vocês deviam assinar esta louça!”. E a gente: “Pronto, vamos lá assinar!”. A única pessoa que assinava era eu, porque era a única pessoa que sabia ler na família, mais ninguém. A minha mãe sabia escrever o nome dela, mas não sabia ler; as minhas irmãs também não sabiam ler, e eu é que assinava a louça toda. Eu comecei a assinar “Ana Baraça”. E, pronto, desde aí, teve muito mais procura.

Lembra-se de quem vos aconselhou a assinar?

Fernando – Ui, não!!
Vítor – Foram os colecionadores.
Fernando – Nós íamos todos com a minha mãe para Barcelos vender, e as pessoas vinham à mesa e diziam: “Vocês deviam assinar isto”. E a gente começou a assinar. Foi desde aí. Ainda se vê louça que não está assinada mas que eu sei que foi feita por nós. Entretanto, houve uma época, quando o tal Domingos Côto começou a fazer o primeiro galo… Ele era rodista e fez o primeiro galo, mas ele era viúvo, e não tinha nem filhos com ele, nem mulher. Mas começou a fazer galos e pediu à minha mãe para os ir pintar, e a minha mãe pintou-os. Depois veio uma senhora de Areias que os comprou todos, e foi vendê-los para Barcelos. E nesse dia de feira, ela vendeu-os todos! E a minha mãe viu e disse assim: “Ai! Como é que pode ser? Olha que vendeu os galos todos!”
Vitor – Foi aí que começou.
Fernando – Desde aí, o Domingos Côto começou a fazer, a minha mãe pintava, e depois levava-os ele. Depois o Domingos Côto deixou de os fazer, e quem os fazia? Éramos nós! E a Rosa Côta. Ali numa época nós começámos a fazer o galo, a minha mãe a pintá-lo... E depois começou a usar um método de os pintar que ninguém conseguia fazer. Naquela altura não havia pincéis como há hoje, e ela usava um prego. Molhava-o na tinta e dava aquelas pintinhas nos galos, e aquilo ficava em alto relevo! E diziam assim: “Como é que pode ser? Que coisa rica!” E nós ficávamos contentes só por ver aquela pintura, mas só ela é que sabia fazer aquilo. Um dia alguém passou aqui e ouviu o barulho do prego a bater; e descobriram que era com o prego! [risos] E dali a pouco tempo a [Rosa] Côta já fazia aquilo também. Nós tínhamos um tio que era rodista, e vinha aqui e fazia os galos à roda, e depois nós montávamos, a minha mãe pintava-os e vendíamos. Entretanto, o meu tio também morreu. Eu sabia um pouco da roda, porque quando era pequenino ia para junto do meu avô estragar barro, e portanto tinha uma pequena ideia daquilo. Conclusão: comecei a ir eu para a roda. Não era um artista como eles! Mas os anos fazem os artistas! Então começámos a fazer os galos, a inventar, a inventar... antes era aquele galo tipo tradicional. Hoje estamos a fazer galos diferentes, tudo à roda. Até o bico é feito à roda! E sou eu que faço! Hoje não temos mãos a medir a fazer estes galos, porque hoje não há rodistas! Os artesãos hoje precisam de um rodista para trabalhar, mas há poucos e são pessoas idosas. E isto requer um bocado de genica! [risos]

“Como é que pode ser? Que coisa rica!”...

Quando a sua mãe estava a começar, quem fazia figurado também?

Fernando – Naquela altura... a minha mãe, a Ramalha [Rosa Ramalho] e a Rosa Côta eram as pessoas que estavam inseridas no artesanato, mas faziam todas coisas diferentes! O figurado começou com essas três mulheres. E daí cresceu sempre até hoje.

A sua mãe vendia também em feiras, como a Rosa Ramalho?

Fernando – Sim. Mas a Rosa Ramalho começou muito primeiro que a minha mãe. Ela teve ali um indivíduo que lhe deu muita categoria, e ela era muito mais bem falada do que a minha mãe.
Moisés – A Rosa Ramalho saía muito, já ia para Lisboa, para o Estoril, enquanto que a minha avó não saía, ela não queria sair.

Mas ela deve ter tido muitos convites.

Vítor – Sim. O único sítio onde ela ia era aqui à exposição de Barcelos, à inauguração. Estava ali, até passarem as entidades. Quando passassem, ela levantava-se e vinha-se logo embora.
Fernando – Nós no início só fazíamos Barcelos. Depois é que as Câmaras começaram a interessar-se por isto, e a apoiar fulano e fulano e fulano...
Moisés – Mas ela não ia também a Matosinhos?
Fernando – Sim, mas isso era noutro tempo, no tempo em que o pai ainda era vivo. Eles carregavam o carro de bois de louça e iam para Matosinhos a pé!
Vítor – E demoravam um mês a chegar a Matosinhos?… [risos]
Fernando – Eles diziam que em dois dias chegavam lá. Eu, quando tinha 17, 18 anos, já íamos todos por aí abaixo para o Alentejo, fazer a feira de Estremoz. Mas a minha mãe não ia.
Moisés – Mas depois de ela seguir esta área do figurado, para feiras de artesanato nunca ia! Convidavam-na muito para ir mas ela nunca ia.

Por alguma razão?

Moisés – Ela, para já, não ouvia, deixou de ouvir para aí aos 60 anos, e era preciso ir sempre uma pessoa com ela. E também não era o estilo dela. O estilo da Ana Baraça em relação ao estilo da Rosa Ramalho não tinha nada a ver. A Rosa era muito mais à frente, mais moderna, mais faladeira. A minha avó era muito mais fechadinha.
Vítor – Aquele escritor, como é que ele se chamava...

António Quadros.

Vítor – Esse é que lhe deu aquele impacto [à Rosa Ramalho], e ela aproveitou.
Fernando – Mas a Rosa não fazia grandes peças, que eu lembro-me. Era tudo mais mal feito! [risos]
Moisés – Ó pai, isso de ser mal feito ou não, depende. Eram peças que na época eram difíceis de entender.

Depois foi passando para a vossa geração. E agora, continuam a fazer feiras?

Vítor – Sim, já fizemos bastantes. Já fizemos mais do que o fazemos agora. Dantes corríamos o país todo, agora só fazemos Lisboa, Coimbra. Estivemos agora em Vila Franca...
Fernando – Agora é que vós devíeis fazer! Porque agora tendes apoios, e antigamente nós íamos e nada de apoios! [risos]. Eu recordo-me quando ia a Estremoz, mais o Carlos. Levávamos a carrinha cheia e vínhamos com ela vazia! 

Em que altura?

Vítor – Nos anos 1980/1990.

Uma vez que já trabalham há várias gerações, devem ter passado por diferentes momentos, uns melhores e outros piores.

Fernando – Nós nunca tivemos crise, nunca tivemos uma época em que disséssemos: estamos a vender mal. Sempre vendemos bem. Porque nós não exploramos muito os clientes, estamos a vender a um preço muito acessível. E eu já tenho pensado que é por causa disso que toda a gente compra.
Moisés – Ó pai, não é só por isso, isso é uma das razões. 
Vítor – A pessoa tem é que gostar da peça!

Vocês são uma das famílias mais sólidas a produzir figurado. Qual é então a razão do vosso sucesso ao longo de todo este tempo?

Fernando – É continuar!
Moisés – É sermos criativos e fazermos sempre coisas novas. Nós, peças da minha avó, fazemos poucas. Hoje, tudo o que fazemos é já da nossa autoria.
Vítor – Inicialmente éramos três irmãos. Agora um já não está connosco. Tínhamos uma equipa bem montada. Ainda temos, mas naquele tempo estava melhor.
Moisés – Na nossa altura, não havia gente nova no figurado. Éramos nós e os Mistério, que também são do nosso tempo, e o António [Ramalho], mas ele não estava já a fazer na altura. Via-se pouca juventude. E nós às vezes questionávamos: “Os nossos colegas vão todos para este e outro trabalho, e nós estamos aqui!?…”. No artesanato, na altura em que nós começámos, olhávamos à nossa volta e eram só reformados.
Vítor – Agora já estamos no sentido contrário. Agora vê-se mais pessoas formadas, da universidade e tudo, a andar no artesanato. Mas já se trabalha de outra maneira.
Moisés – O nosso lema sempre foi: já que nós gostamos disto e queremos dar continuidade, vamos fazer com que consigamos viver do artesanato. Na altura era muito difícil, mesmo para se conseguir tirar um ordenado mínimo. As pessoas eram reformadas, tinham aquela reforminha e depois complementavam com o artesanato, ia-se vivendo. Por isso, na altura foi um bocadinho difícil. Lutámos sempre para poder viver do artesanato e hoje é do que nós vivemos.

Mas chegaram a ter outras profissões?

Vítor – Não. Andámos a estudar... mas isto foi mais forte.

Houve uma altura em que as coisas começaram a melhorar?

Vítor – Sim. Os anos 1990 para 2000 foram maravilhosos.
Moisés – Houve sempre altos e baixos, como há noutras atividades. Podemos ter notado uma quebrazinha mas nunca foi nada de preocupante. Também somos nós que fazemos tudo, desde comprar o barro até à venda final. Sempre tivemos um bom nível de vendas. E não somos nada peritos em vendas. Nós mantivemos a produção, com qualidade, e selecionamos as lojas, temos esse cuidado. Em Lisboa, vendemos para duas lojas; numa cidade mais pequena para uma, também não nos adianta vender para mais porque não temos capacidade. O produto acaba por estar na loja e valoriza-se, não há aquela concorrência de preços. E hoje as coisas acabaram por correr bem.

Lutámos sempre para poder viver do artesanato...

Como assinam as peças, individualmente ou em nome da família?

Vítor e Moisés – Assinamos Irmãos Baraça.

E como dividem o trabalho?

Moisés – Na nossa família foi sempre um bocadinho baseado na união do trabalho entre todos. Enquanto que há famílias onde é só o artesão a criar, nós aqui usamos sempre o conjunto, mesmo para criar uma peça. É sempre no conjunto que funcionamos.

Como encaram o facto de agora haver tanta gente a fazer figurado?

Moisés – É bom para nós, quanto mais concorrência melhor! Eu sou do tempo em que éramos só quatro. Éramos nós, o Mistério, a Ramalho, a Côta. E a Sineta, mas não deixou seguidores. Há bocado falámos de três mulheres mas eram quatro, faltou a Maria Sineta. Mas... eu acho que a concorrência só nos veio favorecer, só nos fez mexer mais. Agora, acho uma coisa: enquanto que, naquele tempo, as quatro mulheres que faziam artesanato se respeitavam, hoje em dia ninguém respeita ninguém. O problema é esse. E, como não há ninguém que nos defenda, a única solução é estar sempre a criar, para tentarmos estar sempre à frente um bocadinho. Hoje em dia, entra gente no artesanato para fazer exatamente o que estamos a fazer; ainda que o estilo seja um bocadinho diferente, a ideia está lá. Fazemos este galo com esta perna; já apareceu gente a fazer o mesmo, e nós não vamos poder fazer nada. É andar para a frente. A concorrência foi boa para nos fazer puxar mais pela cabeça, para não estarmos tão parados, mas achamos que se perdeu um bocado o respeito. Os mais antigos ainda se respeitam um bocadinho, mas esta juventude que entrou agora no artesanato não tem respeito nenhum! Dizem que o artesanato está com muita vivacidade. E está! Mas não há um cuidado, uma seleção. Não sabemos se haverá lugar para toda a gente.
Vítor – É o salve-se quem puder! Nós aqui na freguesia vamos ter um pouco esse problema. Havia muitas fábricas de cerâmica, e quase todas faliram. Essas pessoas sabem trabalhar um bocadinho o barro, e depois começam a fazer figurado.
Moisés – Nós vamos a uma feira, temos os nossos colecionadores. E é chato dizerem-nos: “Nós passámos num stand e estava lá uma peça quase igual a vossa!”. O que eu acho é que se vai chegar um ponto em que Barcelos vai perder aquela qualidade...
Fernando – Não perde nada! Isso vai obrigar-vos a fazer melhor!

O vosso pai é um optimista! [risos]

Moisés – Temos alguns clientes que dizem: “Vou à FIL, e 20 stands são de Barcelos”. E acaba por ser... acaba por ser tudo o mesmo, tudo paga pelo mesmo.

O que acham do termo arte popular aplicado ao vosso trabalho? Acham apropriado? Ou preferem artesanato?

Moisés – Arte popular.
Vítor – Sim, isto é arte popular. Acho eu.

Como definem o figurado tradicional de Barcelos?

Vítor – É arte popular, é arte manual, é fazer tudo 100% à mão.
Moisés – São as figuras representativas desta região. Representa aquilo que vemos aqui à nossa volta.
Vítor – Tem a ver com as festas do Minho.
Moisés – São peças representativas da região do Minho, mesmo as cores, que são vivas. As romarias, as festas.

E como veem a relação entre o tradicional e moderno no artesanato de Barcelos?

Moisés – Acho que o caminho está na inovação, e até em termos do artesanato tradicional achamos que devia haver parcerias com designers, para criar uma peça, mesmo que dentro do tema tradicional, mais moderna, com outros materiais.
Vítor – Haviam de ser mais unidos, conversar uns com os outros, para trocar ideias. Partilharmos ideias, até com os espanhóis, trocar ideias. Nós já fizemos exposições no estrangeiro e é uma coisa totalmente diferente daqui. Eles até não são melhores do que nós, mas são mais unidos e mais organizados. Nós aqui… é como se costuma dizer aqui no Norte: é à cabeçada uns ao outros! [risos]
Moisés – Nós temos umas parcerias com umas agências de viagens, eu acho que também é um bocadinho o futuro. Tentar chamar o turista a vir ver as oficinas. Eles deviam encaminhar o turismo que vem a Barcelos às oficinas, que é algo que eles não fazem. Tivemos que ser nós a fazer por nossa iniciativa.
Nós nunca vimos tanta gente nova no artesanato, nem tantos designers. E mesmo arquitetos, que estão no artesanato a fazer peças completamente diferentes. A arte popular foi sempre um parente pobre da cultura, sempre. Antigamente, o figurado não tinha grande aceitação, era uma coisa assim “parola”! Depois foi mudando, já está num patamar diferente. Isto é uma fase boa porque também anda muito turista em Portugal. Era preciso era que isto continuasse sempre.